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Buddy Guy mostrou no RJ que o blues está vivo e bem de saúde
BUDDY GUY
Vivo Rio, RJ/RJ (11/05/2012)
Texto e fotos por Daniel Croce
Posso afirmar que meu primeiro ano e meio, algo em torno de setembro de 1994 ao começo de 1996, foi um período totalmente dedicado, ao menos em termos técnicos de aula de guitarra, ao blues e ao blues rock. "Big" Gilson Szrajbman, tentou, tentou, mas não conseguiu me segurar só nisso por muito tempo. Mas agradeço a ele assim mesmo. Durante esse tempo, acho que não teve um artista clássico do estilo que eu não tenha passado ao menos por perto para dar uma olhadinha. Invariavelmente Stevie Ray Vaughan foi o que mais me chamou atenção, e durante esse ano e meio, Rory Gallagher faleceu abruptamente, o que me levou a investigá-lo mais um pouco.
A capa da ainda jovem Guitar Player Brasil, de julho de 1996, trouxe a figura de dois ícones: John Lee Hooker e Buddy Guy. O título era emblemático: "o mais cruel blues vivo". Sim, bem como todas, tenho essa edição até hoje. Quando vi a propaganda do show deste último marcado desde o fim do ano passado, foi essa frase que me veio em primeiro lugar na cabeça: "o mais cruel blues vivo".
Fiquei matutando se esta verdadeira lenda viva ainda teria cartucho para disparar, já perto dos seus 76 anos, a comemorar em 2012 sob o signo de leão. Eu não chamaria o que vi de tiro, mas sim de "nivelação do chão do local". Ok, a expressão perde o impacto em português: level this place down. É a expressão militar para quando um ataque será tão maciço que, literalmente, o relevo artificial, tais como construções, ou ate mesmo o natural, ficarão lisos. Foi mais ou menos isso que Buddy Guy fez na última sexta feira no Vivo Rio, aterro do flamengo RJ.
Eu mal saí de um show "clássico vovô", e caí em outro. E com prazer. Depois da saraivada de sucessos de Roger Hodgson, o legado vivo do blues de Chicago-Illinois chegou e fez mais barulho ainda. Ancorado por uma banda bem ensaiada e afiada, de mais um guitarrista, baixo, bateria e hammond organ, Guy desfilou o melhor do improviso bluseiro, afora uma enorme simpatia e felicidade por estar ali. E isso ficou claro pois o público, mesmo sentado, e cuja soma de todos do local provavelmente daria a idade do Paleozóico, cantava – ou completava o silêncio proposital, paradinhas, feitas por ele e banda – os grandes standards do blues norte americano. Blues significa "tristeza" num sentido figurado (não, o estilo não vem da cor azul), e não seria num país cheio de mazelas que o real significado do "blues" faria feio. De certa forma, não só os ex-escravos da América do Norte possuem a legitimidade sobre o blues: nós também.
Um grande artista de uma geração seguinte, tributar alguém de uma ou duas anteriores, é uma coisa. Normal até. O contrário é no mínimo inusitado, para não dizer uma pomposa honra. A plateia ficou de cabelos em pé quando Buddy puxou um longo trecho de Voodoo Child, com direito a solar com os dentes, como nosso saudoso Jimi Hendrix, fã confesso do bluseiro, fazia durante sua curta trajetória de 1967 a 70. Stevie Ray tributar a Jimi é uma coisa. Buddy Guy é um nível exponencialmente superior. E que tal então Sunshine Of Your Love, do grande power trio de Eric Clapton, que o projetou ao mundo? Pois é, ele decidiu que era uma boa "coverizar" a canção também. E logo em seguida, soltando outra carta de sua manga de surpresas, não é que o sujeito puxa Miss You de outros fãs ardorosos do grande bluesman, The Rolling Stones? E sim, seguido de mais comoção generalizada.
Durante o show, percebi que havia uma escada bem no meio do palco, que descia diretamente ao público. Pensei "ele vai descer uma hora". E assim se fez. O que ocorreu em seguida foi que essa história de show em mesa "para velho" não ia se sustentar por muito tempo. No show do Roger Hodgson aconteceu somente no bis. Já durante a apresentação de Guy, pegou do meio até o fim dos "covers" dos fãs do próprio, um naco de fáceis 20 ou mais minutos de show. E acredite ou não, "proprietários" das cadeiras mais frontais, ao invés de entrar no clima, se sentiram ultrajados, e até sintomas de insatisfação eu pude notar. O meu recadinho fica para esse pessoal, e serve para aqueles que fizeram alarde também no fim do show do inglês Hodgson, de ameaças de processar a casa pelo desrespeito: não existe desrespeito entre público emocionado e artista que passa essa emoção, não existe afronta quando artista chama o público para ficar mais perto dele, ou ele mesmo vem até o público e quebra o "protocolo da distância do palco até a grade", até porque não havia grade, por conveniência até mesmo para o próprio público. Não perca seu tempo dando faniquito como se você fosse a mãe de uma adolescente histérica vendo os Beatles pela primeira vez em 1960 e tantos, achando aquilo algo desrespeitoso à ordem pública, à moral e aos bons costumes: levante-se também e seja um com o artista, que quer você mais perto dele.
Digamos que eu estava no "lugar certo e na hora certa". Já perto do fim do show, ao lado direito do palco, sabe-se o que aconteceu, e alguém resolveu levar "o blues a sério", como se fazia nos anos 30, 40, 50, 60 e por aí em diante: começou uma briga de bar, sabe-se
Robert Johnson e sua santidade bluseira o porquê. O bom é que o problema foi rapidamente contornado pela segurança da casa, e nem se o brigão quisesse, um punhado de público não somente execrou o engraçadinho como, por legitimação, expulsou-o do ambiente.
É um soco na cara dos "puristas" do blues, que amam usar sons límpidos, cristalinos, sem veneno, sem pegada, para ser mais exato sem quase nada. Pois o cabra não teve a menor piedade em socar o ganho do seu amp, ou de seu pedal tube screamer (uma distorção "must" de 10 entre 10 guitarristas de blues e rock clássico) no talo, e atacar as cordas com palheta, dedo, baqueta, barriga, dentes como ja mencionei, sem nenhuma vergonha. Se conter é se limitar, deve pensar a lenda viva, e até nisso ele dá um tapa de luva de pelica na "velharada", a qual deve pensar uma coisa sobre como e pode ser executado o blues, e de fato, é outra.
Briga, público em pé, público sentado tomando vinho e cerveja, quase uma hora e quarenta de clássicos e standards: sim, o blues está vivo e bem de saúde, na música e na atitude.
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